segunda-feira, 9 de maio de 2011

O GUARDA-CHUVA E O IMPONDERÁVEL


Ana está passando por uma crise existencial daquelas que definirão para sempre o que ela será e como será até o último dia de vida que lhe resta a partir do dia em que fará 40 anos.

Será a crise dos 40? Mas crise dos 40 nem existe mais  foi substituída pela crise dos 30. 
É 40 anos! Tem que repetir isso várias vezes pra ver se ela própria acredita. 
Mas não é sobre fazer 40 anos com “cara” de 30 ou 20, que vamos dialogar com nossa amiga Ana.

Pra cuidar da cabeça Ana faz terapia. 

Estava ansiosa por sua sessão de hoje contava os dias e as horas desde a última sessão na semana passada, para sessão de hoje. Contou os minutos até a hora que pudesse estar diante daquele deus grego que lhe salva dos abismos e que ela não dá a mínima! O homem é lindo, mas, isso não lhe interessa. Só quer saber de coisas palpáveis, viáveis, realizáveis e principalmente, possíveis. Tem neste momento uma alma de dar inveja ao mais gélido dos existencialistas.

Tudo o que lhe acontece no dia a dia, é analisado friamente mesmo que todos tentem inclusive, o  terapeuta bonitão, a dar-lhe explicações metafísicas, para eventos adversos, que lhe acontece na vida. Tudo, dizem, é decorrente da lei de ação e atração...  Pra ela, o dia e cada acontecimento é o que é. Se o dia de hoje tivesse tido um outro  final, talvez, começasse brotar uma possível conversão a certas crenças.

Acordou cedo, fez planos montou a agenda, cuidou do almoço, deu almoço a filha, levou-a a escola, foi supermercado, deu alguns telefonemas, evidente que escolheu os menos complicados pra não perder tanto tempo. Não que os quisesse dar. Foi atrás de coisas pendentes para a casa, tudo pra não se perder no tempo e correr risco de chegar atrasada, ou de ter outros contratempos que lhe impedisse de chegar na sua tão aguardada sessão de terapia.
Tinha muito o que falar hoje. Essa seria o contrário da última que passou metade do tempo muda. Deve ter acumulado.

Estava cheia, transbordava informações a serem analisadas à luzes Freudianas. Terminada a agenda antes de seguir pra terapia, deu uma checada geral, afinal, tinha que sair da terapia voando pra pegar a filha na escola, levar a aula de inglês, sair do inglês ir para casa, fazer o jantar, servir o jantar a filha que estaria faminta e cheia de novidades que lhe impediriam de refletir sobre si mesma, o que foi a sessão de terapia e suas descobertas sobre ser o que ainda não sente ser, ufa!

No céu uma tempestade se anunciava e este, se transforma em mais um desafio a ser superado até que chegue a clínica de seu terapeuta.

Chegou!

Nem acredita que está ali diante da porta de madeira e que atrás dessa porta, muitas outras portas imaginárias se abrirão, outras se fecharão e outras ficarão ali, entreabertas, outras trancadas pra nunca mais serem abertas. Tocou a campainha uma vez e esperou tempo suficiente pra tocar a segunda vez, depois a terceira, a quarta e nada! Não tem ninguém do outro lado da porta que significa luz para o resto dos seus próximos 40 anos?! Não acreditou. Esperou. Nenhuma porta se abriu.

Aquela tempestade que se anunciava começou forte e ameaçadora. Abriu o guarda-chuva. Protegeu-se. Nenhuma porta se abriu.
De repente começou a sentir frio, quando se deu conta já estava toda molhada, só então percebeu que chovia através do guarda chuva. Alguém já teve ou viu um guarda-chuva com goteiras? Aquele guarda-chuva era simbólico, explicava os primeiros segundos do “nascimento” de sua crise. Num ataque de fúria deixou o guarda-chuva em 40 mil pedacinhos a frente da porta fechada, deixando que a chuva lavasse a sua fúria e frustração. Diante da tempestade que reproduzia a sua raiva, sem respotas, pulou como uma louca na frente de um táxi passava e foi embora.
Pegou a filha na escola, fez reunião (imprevista) com os professores da filha, foi para casa fez o jantar, serviu o jantar a filha, conversou com a filha, ouviu atentamente a filha, respondeu a todas as suas indagações e quando finalmente conseguiu sentar-se, suspirou profundamente e sentiu todo o seu dia, sua existência, seus 40 anos desde o seu nascimento, e parou.
(Escrito em Fevereiro de 2011)

  




Um comentário:

  1. Muito bem, dona Paixão. Boa sacada, essa do guarda-chuvas. bjs.

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